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Mgtow: Dilemas do macho contemporâneo

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Estava hoje pela manhã cumprindo com minha rotina de procrastinação antes de me concentrar no trabalho, na ocasião vendo a vídeos interessantes no YouTube, numa tentativa masturbatória mental de colocar algum sentido na minha vida. Nestas horas vejo notícias sobre o mercado financeiro, política, opiniões de pessoas a quem tenho apreço e como se fora um sinal do destino, o algoritmo do YouTube me oferece um vídeo de uma bonita garota ruiva com fisionomia de perplexa e o título: “MGTOW – Os Homens Não Querem Mais as Mulheres”.

Na falta de um objetivo claro, cortejei minha curiosidade pra entender o porque deste aparente desvio da naturalidade. Seria alguma frustrada amaldiçoando todo nosso gênero por seus próprios fracassos?

Não, o fato é que desde meus 16 anos de idade, quando me defini como metaleiro, não havia me sentido tão descrito dentro de um conceito. Ao fim do vídeo tive certeza, sou um mgtow!

Eu vou deixar o vídeo da youtuber Ayu, porque ela explica com muito mais qualidade do que eu:

Um cara como eu, com 37 anos nas costas, já passei por um bocado mudanças importantes em termos de tendências de comportamento humano. Vou começar citando a minha adolescência, que se eu contar para as pessoas mais novas eu fico me sentindo um vovô contando causos aos netinhos.

Sempre fui uma criança tardia, amadurecia a um tempo muito posterior aos outros, sobretudo às garotas. Me lembro na 5a série, uma garota mais velha queria “namorar” comigo, mas eu, mesmo achando ela atraente, não fazia a menor ideia de como agir. afinal, eu brincava de super herói, jogava bolita no recreio, futebol a pés descalços no campinho de terra até o anoitecer, como alguém assim vai saber o que fazer quando aparece uma garota querendo praticar atos íntimos?

Eu sofri o que hoje chamam de bullying. E apesar de ser um grande constrangimento na época, eu me mantive fiel aos meus princípios e vontades, continuei sendo uma criança ingênua. Porém, aquele sofrimento juvenil ficou guardado na instante das amarguras.

Perdi a virgindade aos 19 anos depois de uns 15 meses de relacionamento com minha primeira namorada a qual eu era estupidamente apaixonado. Tive outras oportunidades antes disso, porém, por não saber como agir, eu sempre corri como uma zebra perdida entre lões.

Após dois namoros longos, com duas garotas completamente diferentes, aos 30 anos eu finalmente cheguei a uma maturidade como homem, o clássico “parei de ser trouxa” e é nesta fase em que o tal do bullying e os fracassos acumulados me forjaram. Eu me tornei um cretino.

Vivia nas festas, me enfiava em qualquer lugar que tivessem fêmeas. Pagode, sertanejo, rock, festa dos universitários, supermercado, estádio, rua, enfim, onde houvesse uma garota sexualmente atraente eu estava la, tentando avançar minha agenda sexual.

Naqueles anos, eu conhecia e transava com pelo menos uma garota nova por semana, fora as reincidentes. Cheguei a transar com 3 garotas no mesmo dia (em tempos diferente ok), tudo para provar pra mim mesmo que eu havia superado aquele moleque ingênuo que não levava o menor jeito com garotas no colégio.

Atingi este tal posto moral. Me senti fodão, reconhecido pelos amigos, fiz minha fama de conquistador. Ainda hoje uns malucos quando me encontram dizem “o cara que zerou o Tinder“.

Mas o que ficou?

Nada.

Porra nenhuma.

Hoje sinto apenas um vazio existencial e a incapacidade de me apaixonar, de me sentir afim de ver uma mesma pessoa no dia seguinte. Eu não sei o que acontece, mas no outro dia é como se um rolo compressor passasse pelos meus sentimentos, eu não sinto nada, nem saudade, nem vontade de ver a pessoa de novo, só um vazio.

Longe de considerar isso depressão ou tristeza. Nunca me senti tão bem com minha própria companhia. Vida profissional estável, financeira ok, um carro legal – nada super luxuoso – mas que não faz nada feio. Vida social disponível com várias “tribos” diferentes, viagens regulares. Enfim, not bad.

Tecnicamente eu quero um sentido para a vida e eu acho que ter um filho/a seria o motivo mais glorioso para esta minha vida de ouro de tolo do Raul. Mas e a mulher? Imagina acordar e dormir com a mesma pessoa todos os dias? Visitar a sogra, se misturar com os parentes, amigos que nem sempre são interessantes e principalmente as manias, os jogos, AAH.

O interessante é que eu sei exatamente o porque não me apaixono. Você sabe por que as pessoas se apaixonam? Por que elas fazem projeções. Elas criam uma história e colocam aquela pessoa como personagem. Ou seja, não nos apaixonamos por uma pessoa em si, do jeito que ela é, mas por uma projeção que fizemos dela.

Sabe por que acontecem as decepções amorosas? Por que aquela pessoa não seguiu o roteiro que você projetou, ela apenas foi ela mesma.

Ou seja, se você desligar o gatilho de projetar uma história a partir de uma pessoa, você simplesmente não vai imaginar ela na sua vida.

Esta falta de roteirização da vida alheia na sua é uma consequência de muito hábitos da vida contemporânea e de nosso histórico pessoal. Uma delas é a facilidade com que arrumamos sexo nos dias de hoje. Tinder, Happn, direct do Insta, Facebook, Snapchat, e todos os contatinhos do WhatsApp. Tem gente que arruma sexo até pelos comentários do aplicativo do Uber. Eu mesmo já fiz esquema com uma garota a partir do aplicativo de check-in Four Square. Tempo depois ela me acusou de ter iludido ela, além de alguns insultos. Eu nunca iludi ninguém, eu queria transar.

Além de que, se o cara estiver em um estágio avançado da falta de tempo saco, ainda pode simplesmente escolher uma beldade no “cardápio” e fazer a encomenda. Ele vai lá, transa, conversa, se relaciona por um tempo determinado e zaz. Ele vai embora faceiro e sem a neurose de como conversar com ela daquele momento em diante, livre de expectativas pra qualquer lado.

Neste ano de 2019, a garota mais bonita – ela era sensacional – que eu transei, me custou R$250,00 + a grana do motelzinho. Na moral, às vezes, pra sair com uma garota que você conheceu por aí custa bem mais caro se considerar janta, chopinho, combustível e o recurso mais precioso, tempo e atenção.

Outro fator que contribuiu com a contextualização do fenômeno mgtow é o tal do politicamente correto, da lacração, do ginocentrismo. Eu confesso que minha ousadia em abordar as mulheres diminuiu muito nos últimos anos, o que deveria ser ao contrário, uma vez que hoje elas rebolam mostrando a polpa da bunda ao som de “meu pau te ama”, entre outras celebres frases que acabam com qualquer expectativa ou mistério sexual. Na verdade mesmo, da até uma broxada, mas não sexual e sim “intelectomoral”. Claro que eu gosto de ver “novinhas abrindo a raba”. Uma certa vez recebi um vídeo de uma garota pelo WhatsApp com este enredo e confesso que foi a coisa mais lasciva que já recebi na vida, me masturbei umas tantas vezes com aquele vídeo e claro, saí com a garota. O sexo foi maravilhoso, aquela bunda… mas pra variar, eu devolvi ela em casa e nunca mais a vi novamente. Ela era tão legal, simpática, divertida, poderia passar horas com ela sem pensar em sexo, apenas apreciando a pessoa. Talvez se eu tivesse conhecido ela em uma ordem de fatos diferentes eu também teria uma ordem de interesse diferente. Ou seja, se primeiro tivesse notado ela pelas características pessoas, para só então depois ter percebido aquela espantosa habilidade em me causar ereção eu poderia ter me apaixonado. Mas será que eu iria notar sem antes ver aquela raba?

Minha nova investida vai ser limpar o Instagram. Vou parar de seguir todas as “gostosinhas da cidade”, até mesmo minhas musas, rainhas, que jamais um dia vou respirar o mesmo ar. Estas pessoas todas não atendem a complexidade do meu vazio, são apenas uma inspiração sexual, apetecem a imaginação. Mas a vida real acontece offline.

Enfim.

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